Quinta-feira, 31 de Maio de 2012

As marotas

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O caso dos espiões trouxe para a praça pública as mensagens ou sms.

Tratar a mensagem no feminino é claramente adequado. Agora referir constantemente “as sms’s” já me parece uma invenção valente.

SMS quer dizer short message service, ora quando nos referimos à sigla sms referimo-nos ao serviço e não a mensagens.

Irresponsabilidade: jamais.

 

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As parcerias público privadas (PPP) começam agora a mostrar os dentes e a dificultar as contas de Portugal.

O Relatório do Tribunal de Contas aponta para um conjunto de negócios ruinosos para o Estado feito pelo anterior Governo no domínio das estradas. O problema é o futuro: entre 2032 e 2034 poderemos por via destes “negócios” ter uma dívida de mais 20.700 milhões de €.

A acrescentar a isto contam-se um conjunto de espertezas saloias da dupla Mário Lino-Paulo Campos. O i avança inclusivamente com a notícia da existência de contratos paralelos destinados a compensar as concessões rodoviárias para que estas passassem no Tribunal de Contas por um preço inferior ao acordado. Enfim, um desastre pelo qual, no mínimo, os anteriores Ministro e o Secretário de Estado têm que ser devidamente responsabilizados.

Segunda-feira, 28 de Maio de 2012

Cara de pau

A situação na Síria continua a agravar-se. O massacre de Houla é apenas mais um triste episódio na sucessão de atrocidades que o regime de Bashar al-Assad tem cometido perante a impotência da comunidade internacional.

     
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Foto: AFP

As reuniões do Conselho de Segurança da ONU foram esbarrando sistematicamente no silêncio obstáculo da Rússia. Mas cada vez é mais difícil disfarçar.

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Putin é o principal responsável internacional pelos desmandos do regime sírio.

Há quem diga mesmo que o Syriza na Grécia se atirou no delírio populista pois tem da Rússia a garantia de ajuda caso a União Europeia se farte de uma vez por todas da irresponsabilidade de quem elege extremistas (à direita e à esquerda) para resolver os seus problemas.

O ódio das cúpulas políticas russas à Democracia, seja ela a velha Democracia ocidental ou a que se perspectiva no Médio Oriente, continua viva.

Sábado, 26 de Maio de 2012

San Mamés

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Fotos_Flickr (abarra)

O Estádio de S.Mamés em Bilbau, no País Basco, é um dos mais míticos espaços de futebol.

É feio, como a maior parte dos estádios espanhóis (esta foi só para chatear os bascos), mas encerra uma paixão tremenda sendo dos estádios mais difíceis de se jogar. Pela proximidade e paixão dos seus torcedores que lotam, quase sempre, o estádio.

 

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Torcedores que este ano chegaram perto de tudo … e perderam.

Insuportável

Relvas

Fico completamente eriçado com ouço o argumento de que há coisas mais importantes para discutir do que a novela Relva versus Público.

Não, não há. Em democracia é fundamental aferir a credibilidade dos seus governantes, escrutinar os seus eventuais desmandos e puni-los exemplarmente.

Mais importante do que a competência é o caráter. Ignorou-se o de Sócrates, a propósito da licenciatura, e ele chegou, infelizmente, onde chegou e deixou-nos como vemos.

 

Foto_Público

Segunda-feira, 21 de Maio de 2012

Gregos

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Se há certeza que eu tenho é que a União Europeia só é forte se respeitarmos a soberania de cada povo e particularmente as suas decisões democráticas.

A Grécia merece esse respeito. O que não deverá tolher-nos em relação à exigência das responsabilidades do país para com os outros. Por mais teorias da conspiração que inventem não me recordo de tanta paciência relativamente a uma nação.

Os gregos não podem querer sol na eira e chuva no nabal e é bom que percebam isso e que os outros países não deixem que a Grécia continue a ser um estado de exceção a quem tudo é permitido. Somos 27!

 

Foto_Kostas Tsironi

Quarta-feira, 16 de Maio de 2012

O número

 

“Ela fumava, nesse tempo, e tinha um ar lânguido e pensativo que eu associava ao cinema francês. Revelou-se, com o passar dos anos, ser afinal miopia. O olhar misterioso, mas isso não lhe retirou o fascínio, pelo contrário, até me sossegou.”

Júlio Córtazar. Bestiário.1951.

 

 

Tenho registado, com particular ternura, o hábito de empregar o ano do nascimento para definir a idade de alguém. Tenho-o ouvido da minha mulher, dos meus amigos, e mesmo de mim próprio, com cada vez mais frequência. Tu deves ser de 65, ou aquele fulano é seguramente de 64, ou até mesmo de 63, tu és afinal de 67 bem me parecia...

A minha geração consegue assim disfarçar o incómodo do tempo referindo-se à sua idade da forma elevada como se refere à colheita dos bons vinhos. As boas uvas obtêm-se nas condições específicas que o tempo meteorológico proporcionou, nenhum apreciador tem a deselegância de dizer que um determinado vinho tem 30 anos. É feio, fala-se do ano da colheita pois o vinho é intemporal (até o deixar de ser). Todos somos vintage. Todos temos uma marca do ano em que nascemos. E se alguém se sentir incomodado pela delicadeza da geração que assim se define, que faça as contas.

E quando um dia, mesmo assim, for já indelicado referir o ano, pode ser que adotemos de forma ainda mais sub-reptícia o calendário chinês. Afinal tu és coelho ou cavalo?

 

 

A excitação provocada pela vitória socialista em França causou um grande entusiasmo nas hostes nacionais por aquilo que se percebe pela leitura dos jornais. Compreenderia o entusiasmo se este resultasse da higiénica substituição de uma personagem de opereta (como era Sarkozy) por um homem culto e discreto (como suponho que seja Hollande), mas não.

Desata-se então a falar de crescimento como se falar dele fosse suficiente para crescer. E em Portugal como se de repente descobríssemos formas de crescer que não aquelas que tão bem conhecemos por conta do dinheiro dos outros e do egoísta comprometimento do bem estar futuro. Fala-se como se fosse já esquecido o regabofe doentio de ilusão que teve como principal expoente Sócrates e o seu egocentrismo delirante e desinteresse pelo futuro dos seus concidadãos.

Há até quem diga que temos de romper com a troika, só porque nos apetece, e porque temos saudades de construir os fontanários e festas com o dinheiro daqueles a quem queremos depois dizer: não pagámos! Depois da descoberta do quão irresponsavelmente fomos governados alguns querem passar, à boa maneira portuguesa, para a bonança antecipada e um desejo profundo de relaxe nas contas públicas. Como afinal não morremos, vamos então voltar ao mesmo.

Pormos as nossas contas em ordem não será apenas uma questão de respeito pelos outros, é, fundamentalmente, uma questão de respeito por nós próprios, de resgatar esse sentimento tão esquecido: a honra!

 

Mas vai havendo entretanto números positivos. Já repararam na forte queda do preço dos medicamentos, na prescrição acentuada de genéricos, nas regras apertadas para as margens de lucro da indústria farmacêutica?

Esse trabalho está a ser feito, sem alarido, pelo ministro da saúde. A sua cara de mal disposto não ajuda, o facto de não ter nenhuma central de propaganda a trabalhar para ele também não, mas a verdade é que no setor da saúde está a ser realizada uma reforma importante e necessária. E ele prefere a descrição, prefere não se pavonear, o que, diga-se, só atesta a sua determinação.

 

Publicado in Comércio de Guimarães

Imagem Série de Circo   José de Guimarães

Quinta-feira, 26 de Abril de 2012

Calor

 

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Perante notícias realmente chatas a preparação da visita de Obama a Cartagena para um encontro com líderes da região foi realmente uma notícia diferente e digna de estória.

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Segundo o Público:

“O escândalo rebentou no fim-de-semana – quando Obama estava em Cartagena a participar na cimeira – depois de uma prostituta se ter queixado à polícia de que um dos agentes norte-americanos não lhe tinha pago após ter recorrido aos seus serviços na quarta-feira anterior.
Em poucas horas, os agentes alegadamente envolvidos ou com conhecimento do sucedido na Colômbia foram chamados de regresso a Washington por “suspeitas de conduta imprópria”. Desde então a agência tem vindo a tentar gerir este embaraço que foi já definido como o maior na história dos serviços secretos norte-americanos.”

 

E lá se foi o “profissionalismo” dos serviços secretos americanos mas ficou um argumento curioso para a indústria cinematográfica da América.

O calor tem destas coisas.

Aloe Blacc

 

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É-me difícil descrever em palavras a excelente atuação de Aloe Blacc na Casa da Música o passado sábado. Sublime será talvez um adjetivo apropriado.

Blacc espantou-me pela forma como se apresentou, sustentado “apenas” por um quinteto de cordas mas libertando, mesmo assim, a sua voz poderosa num concerto surpreendente.

 

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Mais fácil será definir o habitual desrespeito da Casa da Música pelo horário dos concertos; já nem nos Festivais ao ar livre atrasos destes acontecem. A entrada caótica, tipo jogos de futebol há mais de 20 anos, serviu para eu sentir saudades do centro cultural Vila Flor.

Salvou-se o magnífico concerto.

 

Fotos Filipa Oliveira aqui.

Quarta-feira, 18 de Abril de 2012

Nunca pior

 

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Raramente temos a perceção do quanto evoluímos, ano após ano, em termos de consciência social, cultural ou política, em termos do respeito pelos outros. No entanto tudo parece ao contrário, o peso das notícias e a tendência para relevar as coisas más dá-nos uma noção generalizada de que tudo se afunda, de que o trajeto é (inevitavelmente) para baixo e não para cima.

Vejamos por exemplo os conflitos entre povos, as guerras a que eles conduzem, diminuíram drasticamente ao longo da história da humanidade. Na nossa Europa isso é claro e já não temos um conflito bélico entre países desde o fim da Segunda Guerra Mundial, há quase 70 anos! Isso é inédito na nossa história comum.

A União Europeia é, de forma injusta, um saco de boxe onde os cidadãos descarregam as suas frustrações. Os cidadãos dos países mais ricos porque se sentem roubados e os dos países menos desenvolvidos porque se sentem menosprezados. Uns e outros terão as suas razões, mas tudo é irrisório se percebermos o potencial de solidariedade e de civilização que a União Europeia nos trouxe. Não são apenas as regras democráticas, as normas de saúde, higiene ou ambiente que transpusemos para um quadro legislativo comum que importam, mas fundamentalmente a paz a que atualmente pouco valor se dá, já que a tomamos (erradamente) como garantida.

Comparando a nossa época com a Idade Média pode constatar-se que a taxa de homicídios baixou 30 vezes (ver Peter van Uhm no TED). Conseguem imaginar a nossa sociedade com 30 vezes mais mortes por assassinato? Certamente que não. A verdade é que ao longo da nossa história fomos passando para o estado o monopólio da força e da lei, fomos evoluindo e tornando-nos corresponsáveis nos estados democráticos por esse monopólio necessário.

 

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Quando olhamos para os Estados Unidos da América não podemos deixar de nos espantar com o facto de o país ter um presidente negro, que muito provavelmente será reeleito em novembro. É uma espantosa realidade tendo em conta que a comunidade afro-americana é apenas a terceira em número de pessoas (12,3%), atrás da hispânica (12,5%) e da comunidade branca (69.1%), mas também porque a história daquele país nos diz que há 50 anos um qualquer Obama teria muitas dificuldades em obter uma educação de qualidade ou até, nos estados do sul, teria severas restrições em usar uma casa de banho “pública”.

E que dizer da democracia sul-africana e da recente primavera árabe? Há riscos e perigos? Claro que os há, mas não deixa de ser um degrau mais acima em termos da liberdade dos povos e do combate contra o preconceito.

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Ao nível daquilo que se designa por costumes essa evolução é ainda mais visível já que basta uma ou duas décadas para analisarmos e refletirmos sobre as nossas perspetivas pessoais, sem grande esquecimento ou distorção daquilo que outrora pensávamos.

A homossexualidade passou rapidamente – e bem – aos olhos da sociedade portuguesa, de uma aberração para uma opção. E isso em muito poucos anos. Eu próprio não me estaria a ver há dez anos atrás a achar normal, como penso hoje, o casamento entre duas pessoas do mesmo sexo, apesar de achar escusada a mimetização do casamento desde que garantidos os direitos civis de quem decide viver junto independentemente da orientação sexual, mas compreendo-o face ao desejo de se ver reconhecido esse ato de mútua vontade.

Já nem me atrapalha hoje a adoção de crianças por casais homossexuais tendo em conta a necessária observância de um conjunto de regras de respeito pelo bem-estar e liberdade das crianças. Há pouco tempo atrás isso ainda me metia alguma confusão, hoje não me mete nenhuma.

 

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Gosto porém de manter a minha inflexibilidade em casos menores como o do varandim do Toural, pois se há coisa que se discute são mesmo os gostos.

 

Fotos_Joshua Benoliel

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Publicado in O Comércio de Guimarães